Quando o Exame é o Problema: Repensando o Cuidado
Na semana passada, li a coluna do Dr. Drauzio Varella na Folha de S.Paulo, intitulada "Os problemas do excesso de exames", e senti como suas palavras tocaram em algo profundo e necessário no exercício da medicina. Em um trecho, ele escreve:
“Exames em excesso têm levado à detecção de anormalidades insignificantes, que não incomodariam ninguém ao longo da vida, mas que, uma vez descobertas, induzem a tratamentos potencialmente perigosos.”
Essa frase, apesar de curta, diz muito. Ela nos alerta para o risco real da iatrogenia, que é o dano causado por intervenções médicas desnecessárias — um tema que ainda precisa ser mais debatido, inclusive entre nós, profissionais da saúde.
É nesse contexto que a prevenção quaternária se torna tão relevante. Essa abordagem nos convida a reconhecer que, muitas vezes, o cuidado verdadeiro está em não fazer, em evitar exames e tratamentos que não trazem benefício real e podem gerar mais sofrimento do que alívio. Prevenir o excesso é, também, uma forma ética de proteger.
Como médica de família e comunidade, vejo diariamente os efeitos colaterais de um sistema que estimula mais exames do que escuta. A prevenção quaternária não é sobre omissão; é sobre respeito ao tempo, à história e à singularidade de cada pessoa. Às vezes, o melhor que podemos oferecer é presença, escuta e uma orientação serena diante da dúvida.
A coluna do Dr. Varella nos convida a pensar numa medicina mais humana e responsável. Uma medicina que entenda que o cuidado também está no limite — no que escolhemos não fazer. E isso, quando bem feito, é profundamente terapêutico.
Para quem ainda não leu, recomendo a leitura completa: Os problemas do excesso de exames.